domingo, 2 de julho de 2017

Senhor; BH, 0130402001; Publicado: BH, 0250802014.

Senhor,
Venha livrar-me de todo embaraço 
E dificuldade;
Venha de vez por todas,
Desengasgar-me
E fazer sair o que está entalado a sufocar-me
E afogar-me em lágrimas;
Senhor,
Venha soltar as amarras das minhas mãos,
Tirar as talas que sustentam meu grilhão;
Faça desentalar
E desaparafusar as entradas para o ar nas minhas narinas;
E desenrolar os fios
E o que estava enroscado,
Em volta do meu pescoço;
Venha, Senhor,
Desenroscar de mim,
Tudo que queira desfazer-me
E só impedir o desenvolver e o estender
Do ideal que estava enrolado,
A esperar  a única oportunidade,
Para desfazer o rolo
E o desenrolar de negócio
E questões tão complicadas;
Quero resolver de vez,
Senhor,
Desembaraçar-me dos pecados,
Desfazer o enredo dessa quarta-feira de cinzas,
Desse fatídico carnaval
E desenredar-me da morte;
O epílogo da vida,
Com salvação
E não com término de um conto ruim;
Com desenlaçamento simplório,
Desfecho simples
E desenlace sem amém;
Senhor,
Venha desfazer o laço do nó da 
Forca em que estou pendurado;
Meus pés já saíram do chão,
Venha desprender-me
E desenlaçar-me,
Sou o passarinho que caiu na arapuca
E não sabe nem voar
E nem fugir;
Faça de mim um projeto próprio,
Como no delineamento
E no traçado geral de um quadro;
Preciso deixar de ser um desenho
E a arte de representar objetos,
Por meio de linhas e sombras;
E ser um desenhista de luz,
Uma pessoa que desenha a luz
E a própria luz;
Pois das trevas vêm as sombras,
Das sombras as assombrações,
Das assombrações os fantasmas
E dos fantasmas os homens;
E pretendo, Senhor,
Deixar de ser fantasma,
Deixar de ser homem
E ser espírito na tua presença. 

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