segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Não sou eu que irei desagravar-me; BH, 0190402001; Publicado: BH, 030102014.

Não sou eu que irei desagravar-me,
Será o tempo, a era, a história; e não irei
Retribuir com ingratidão, não ficarei
Sem agradecer mesmo assim; podem
Até fazer questão de desagradecer-me,
Que tudo que faço é repugnante,
Feio, e desagrada a humanidade;
Podem dizer que sou um ser humano
Desagradável, e que cheguei para 
Causar descontentamento, e desgosto; e 
Não sei agradar, e vivo para desagradar, 
Meu Deus, venha desacumular de mim,
Esta carga de pecado; separa os fardos
Cheios que estão num aglomerado
Da consciência que formo; vem, Senhor,
Desaglomerar a dor do meu sentimento,
Vivo uma depreciação; uma desvalorização
Igual a de moeda, e um deságio,
Que não é de fazer cessar a ira de
Existir; quero desenfadar esta luz,
Desagastar o sol dos montes, e fico
Sem conforto agora; fico sem abrigo,
Pois todos querem deixar-me sem agasalho,
E riem com o meu desagalhar, e o desguarnecer
Por que passo no presente momento;
Não mereço os galões, e para fazer-me
Respirar livremente; e para desoprimir,
Desagaloar, é até pouco, e não quero
Vingar, desagravar também não;
Ninguém pode livrar-se de afronta, de
Desafrontar a existência; e de se desviar
Os fregueses de mim? e de se desafreguesar
As muitas moradas de minha casa? não me
Sentirei desventurado, e nem clamarei: sou
Desgraçado, e muito menos lementarei:
Infeliz de mim, desafortunado meu; é tudo
Infâmia, e temer o escândalo é pior, e
Aguento o insulto, com petulância, e
Atrevimento; não tenho a impudência
Dum político, e nem levo desaforo para
Casa, esqueço o processo no
Julgamento dum foro. 

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